quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Sixties Synths: o pop eletrônico nos anos 60

Conheça a outra face do catálogo deixado pelos historiadores da música




Contrariando impressões ingênuas, a década de 60 transcendeu consideravelmente o catálogo deixado pelos historiadores da música. Se o clima de liberdade concedido em razão dos movimentos civis, revolução sexual e contracultura foram suficientes para engendrar estéticas como acid rock, folk music e consolidar o bebop que movimentou toda a geração de beatniks sobreviventes dos excessos cometidos na década predecessora, no lado oposto aos grandes festivais de rock um catálogo de músicos emergia do underground trazendo consigo uma nova versão para uma mesma história sobre os anos 60.
     
Pouco afeitos às guitarras elétricas, estes músicos preferiram os sintetizadores, instrumentos que lhes assegurariam a tradução do pop através da música eletrônica. Fortemente influenciados pela cultura de massa, a primeira geração do pop eletrônico assimilou elementos do camp, pop art e da cultura hype da época para popularizar um novo gênero musical. Se a compreensão sobre a música eletrônica, até então, reduzia-se a experimentações ligadas à produção erudita, somente uma inclinação contrária permitiria ao público dirigir suas atenções a grupos cujo interesse musical se distanciava das escolas de formação especializadas na música eletroacústica, localizadas nas cidades de Paris e Colônia.   



Se a Clarah Rockmore as experimentações com teremim corresponderam a uma nova direção nos rumos da música de vanguarda, personagens como Jean Jacques Perrey preferiram o contato imediato com o público, imprimindo registros urbanos e populares em composições carregadas por atmosferas futuristas. Distante dos usos abusivos que definiram o uso dos sintetizadores por grupos de música progressiva como The Nice, Emerson, Lake and Palmer – a que a atenção dos estudiosos da música eletrônica costuma geralmente reduzir-se – e Yes, a geração eletrônica dos anos 60 sinalizou usos artesanais dos brinquedinhos de Robert Moog e Raymond Scott, uma atitude que demonstra o desejo de revisar conceitos, garantindo às produções uma ruptura com as escolas de formação, mas acima de tudo apropria-se dos instrumentos de modo a tornar legítima a sua função, num ambiente dominado pela efusão das guitarras.
     
Uma nova paisagem musical firmava-se, então, num campo sonoro monopolizado pelas escalas diatônicas. A década que antes assistiu à ascensão lunar de Louis Armstrong e viu nascer o chip mostrava-se, enfim, inclinada às técnicas de síntese, modulação e distorção de fases dos sintetizadores, transformando estruturalmente a composição popular num manifesto experimental. A produção eletrônica na década de 60, porém, não constituiu um movimento. Localizados em diferentes países, seus realizadores tinham em comum o desejo de revolucionar a música popular, fato que por si só já demonstra a inevitável coincidência de idéias que os unia. 



Compreender um trajeto tão lacunar como a que construíram os historiadores da música eletrônica é um esforço que não só demanda um interesse de ordem estratégica, mas uma crítica à organização de suas metodologias. Ao considerarmos o gênero de um ponto de vista retrospectivo, acessamos camadas conceituais essenciais para compreender desgastes em seus subgêneros, questionarmos experiências vanguardistas e reiteramos a função da pesquisa como ação fundamental para construção de uma memória do gênero.  

Intimamente vinculada à emergências estéticas da cultura de massa, a década de 60 oferece o mais seguro ponto de partida para reconhecer os desdobramentos ocorridos na música eletrônica, uma  vez que abraça uma diversidade de produções que, mais tarde, serão reorganizadas sob tags como disco, synth pop, electro e híbridos cujas setas sempre indicarão uma origem. Que sempre soará como uma ambígua reprise. 







Publicado na revista portuguesa Rua de Baixo, Edição 88, Janeiro, 2003



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