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| Go, Go Second Time Virgin (1969), de Kōji Wakamatsu |
Em 1897, o Japão tem seu primeiro contato com a linguagem cinematográfica, através do sistema de projeções da empresa Vitascope, em cuja formação somava-se Thomas Armat e o já conhecido Thomas Edison. Alguns anos após estes contatos primários com projeções, o Japão já produziria o seu cinema, retratando aventuras de samurais e outras histórias de personagens da cultura nipônica. É desse contato que surgiriam, mais tarde, expoentes do cinema, como Akira Kurosawa (Rapsódia em Agosto), Nagisa Oshima ( Império dos Sentidos), Shohei Imamura ( A enguia) e Takeshi Kitano ( Zatoichi).
Desta experiência, que mesmo em sua fase mais embrionária já demonstrava perfeitamente o pendor artístico dos japoneses – na época em o mundo via os filmes sem som, o Japão já instituía ao benshi a atribuição de reproduzir os diálogos dos filmes, como numa dublagem ao vivo – o seu cinema tem-se estendido por mais de um século, com produções que, de década a década, apresentam propostas estéticas diferenciadas, chamando a atenção pela sua cultura distinta e ao mesmo tempo dialética. É desde invólucro confuso, que mistura o silêncio requintado com paisagens que ultrapassam o olhar glacial dos nipônicos, que surge o gênero Pinku Eiga.
O Pinku Eiga (ou filme cor-de-rosa) pertence a um subgênero de cinema surgido no Japão, supostamente na década de 60, inaugurado pelo filme Sonhando Acordado (Hakujitsumu), roteiro adaptado do romance de Junichiro Tanikazi, sob a direção de Tetsuji Takechi.
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Sonhando Acordado (Hakujitsumu, 1969)
O gênero, que se caracteriza pela constante misoginia, erotismo sugerido e violência ao corpo feminino, reduzido à condição de objeto para fins fetichistas, é normalmente filmado em 35 mm para um público masculino, em produções que não ultrapassam mais de uma hora de duração.
Suas exibições são restritas a salas especiais de cinema e diferenciam-se da pornografia por simples quesitos: ao contrário dos filmes pornô, gravados em formato de vídeo, tais registros aliam-se à imagem com qualidade de cinema. Cenas de conteúdo sexual são produzidas com auxílio de implementos técnicos, como o maebari, peça triangular de cor rosada utilizada para esconder o órgão sexual, e a trucagem, artifício da câmera, destinado a focalizar a axila a partir de uma perspectiva que dê a impressão visual de uma genitália feminina.
Todas as produções do Pinku Eiga são controladas pelo Eirin, código de censura vigente no Japão. Por conta do forte controle exercido pelo código, poucas produções alcançaram popularidade, ficando limitadas a circuitos alternativos, quando não censuradas em sua totalidade. Dentre as produções mais conhecidas – graças à dedicação dos festivais europeus, que mantém hoje sérias preocupações no que toca à divulgação dos filmes – estão Mercado Da Carne ( Nakutai no Ichiba), de Satoru Kobayashi e Go Go Second Time Virgin, filme de Koji Wakamatsu, que chega ao Brasil por intermédio de circuitos de cinema, ainda sem tradução para o português.
Que a cultura japonesa contemporânea é pautada na violência em demasia, isso sempre foi fato. Basta sentar frente à televisão e acompanhar as produções que chegam aos nossos lares tupiniquins, destituídas de qualquer eufemismo. Mas vale, em tempos de globalização e democracias digitais, dar vista ao que acontece às escuras. Entender o Pinku Eiga é interpretar uma sociologia em seus meandros mais tácitos.
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Publicado no Portal Literal
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