quarta-feira, 20 de março de 2013

Literatura do Mal


Conheça a história da editora independente que começou com escritores virtuais e projetou na mídia o recente legado da literatura underground.




O início 

     Eles começaram anônimos, escrevendo em fanzines eletrônicos, junto de outros colaboradores também anônimos: lá falavam de tudo. Chegaram até a agregar alguns milhares de seguidores fervorosos de suas publicações. A história, até aqui, não é diferente da que muita gente conta quando firma parcerias deste gênero, salvo pelo benefício da obstinação e afirmação da criatividade dos escritores Daniel Pellizzari, Daniel Galera e do artista plástico Guilherme Pila
     Organizando festas, produzindo material para outras colaborações, chegaram, então, a uma conclusão: montar uma editora independente, que pudesse dar cara aos escritores perdidos dispersos em sítios eletrônicos e publicar seus trabalhos.  Sem grana, inscrevem seu projeto na FUNPROARTE, programa de financiamento cultural da Prefeitura de Porto Alegre. Aprovado em primeiro lugar no edital, entre tantos outros concorrentes de diversas áreas, eis que surge  a Livros do Mal. A editora começou assim, como uma vitrine experimental, cujo sucesso consistiu em juntar jovens cabeças e novas idéias, sob um mesmo selo. Inicialmente, publicaram dois livros de contos, Ovelhas que voam se Perdem no Céu, de Pellizzari, e Dentes Guardados, do Galera. Depois Vieram Paulo Scott  Joca Reiners Terron, e mais outros escritores, dando corpo ao projeto.

A estética  
  
     Embora cada um dos escritores possuam características diferenciadas, é patente o modo como cada particularidade tende a se cruzar e integrar harmoniosamente o perfil da editora. Influenciados por gente como Hilda Hilst, Georges Bataille e João Gilberto Noll ( que chegou a escrever a orelha do segundo título de Galera),  a Livros do Mal prima pelo contraponto a todo modelo engessado de literatura produzida e – há algumas décadas – abarcada no grande território do contemporâneo. Preferem definir seu trabalho como uma literatura de gênero, cuja volubilidade está justamente em transitar pelo romance policial, pelo gore, ou pelo surrealismo, sem estabelecer nesse trânsito um lugar de chegada e tampouco deslumbrar-se com o ufanismo pop.
     Suas narrativas, povoadas por personagens suburbanos entediados, situações absurdas e fábulas fantásticas, trazem consigo a agilidade dos contos e o frescor de novas formas de contar história. Gaúcha da gema, prefere abandonar a tendência dos romances históricos por personagens atuais, cuja vida, por mais desinteressante que possa ser, constitui um argumento pertinente para uma boa história. 

O Reconhecimento

     O reconhecimento da editora foi quase imediato: em pouco tempo, já estampavam suas caras em suplementos de jornais como Zero Hora, O Globo, revistas como Época e Bravo, ganhando simpatia, tanto dos jornalistas quanto por parte da crítica especializada.
Em São Paulo, Rio de Janeiro, seus livros ganharam novos espaços, para além das estantes das livrarias gaúchas. Surgem, então outros escritores como Marcelo Benvenutti, Cristiano Baldi, Paulo Bullar. E assim era firmada a idéia inicial da editora, de agregar trabalhos de escritores e publicá-los em seu pequeno catálogo undeground. Outros louros ainda vieram em seguida :Na terra natal, recebe o Prêmio Açorianos de melhor editora; em São Paulo, adaptações para teatro de suas duas primeiras publicações pelo grupo Cemitério de Automóveis; Em Milão, comemoração pela publicação dos já clássicos Ovelhas que voam se Perdem no Céu e Dentes Guardados, traduzidos por Patrizia di Malta.

O Fim
     
      A escolha do formato alternativo da editora – que os escritores preferiam chamar de cooperativa de escritores, inviabilizou a manutenção de suas publicações. Em dada momento, perceberam-se entre a cruz ou espada: criar livros ou distribuí-los. Optaram pela criação.
      O projeto, que nasceu dia o1 de outubro de 2001, que sempre foi encarado com certo afeto, cresceu em tamanho desproporcional ao desejo que os autores mantinham de dar corda à suas publicações, em um formato consideravelmente menor que o percebido, e sumariamente menos burocrático do que o constatado por Daniel Galera, que se viu entre a missão de escolher a carreira de escritor ou editor de livros. Sorte: preferiram escrever e traduzir.
     A livros do Mal, então, decreta, seu fim. Mas deixa marcada a ferro a sua marca: o famoso logotipo de tétrico pinto, que estampa os livros da editora , ficará lembrado não somente pela criatividade de Guilherme Pila, que o elaborou, mas pela emergência do reconhecimento de uma nova literatura – menos responsável, porém vigorosa – no Brasil. Mas seus escritores estão por aí, mantendo a fixação pelos mesmos personagens, pelas mesmas situações no sense, que caracterizavam o frescor de suas narrativas. Seus livros também não se foram, por sorte. Grande parte do catálogo original da editora pode ser facilmente encontrado em sites especializados, a preços razoavelmente módicos.
     Neste curto espaço de tempo em que a editora se manteve, muito do olhar comedido das mídias passou a direcionar-se na procura por novos escritores. Seu legado, além de quebrar paradigmas no modelo literário que insiste em perpetuar sua forma rígida e sua ojeriza por novidades, projetou para o público outros nomes, outras estéticas e a mesma compreensão da literatura como portfólio de um momento frutífero das letras brasileiras.






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