Conheça
a história da editora independente que começou com escritores virtuais e
projetou na mídia o recente legado da literatura underground.
O início
Eles começaram anônimos,
escrevendo em fanzines eletrônicos,
junto de outros colaboradores também anônimos: lá falavam de tudo. Chegaram até
a agregar alguns milhares de seguidores fervorosos de suas publicações. A
história, até aqui, não é diferente da que muita gente conta quando firma
parcerias deste gênero, salvo pelo benefício da obstinação e afirmação da
criatividade dos escritores Daniel Pellizzari, Daniel Galera e do artista
plástico Guilherme Pila
Organizando
festas, produzindo material para outras colaborações, chegaram, então, a uma
conclusão: montar uma editora independente, que pudesse dar cara aos escritores
perdidos dispersos em sítios eletrônicos e publicar seus trabalhos. Sem grana, inscrevem seu projeto na FUNPROARTE,
programa de financiamento cultural da Prefeitura de Porto Alegre. Aprovado em
primeiro lugar no edital, entre tantos outros concorrentes de diversas áreas,
eis que surge a Livros do Mal. A editora
começou assim, como uma vitrine experimental, cujo sucesso consistiu em juntar
jovens cabeças e novas idéias, sob um mesmo selo. Inicialmente, publicaram dois
livros de contos, Ovelhas que voam se
Perdem no Céu, de Pellizzari, e Dentes
Guardados, do Galera. Depois Vieram Paulo Scott Joca Reiners Terron, e mais outros escritores,
dando corpo ao projeto.
A estética
Embora cada um
dos escritores possuam características diferenciadas, é patente o modo como
cada particularidade tende a se cruzar e integrar harmoniosamente o perfil da
editora. Influenciados por gente como Hilda Hilst, Georges Bataille e João
Gilberto Noll ( que chegou a escrever a orelha do segundo título de
Galera), a Livros do Mal prima pelo
contraponto a todo modelo engessado de literatura produzida e – há algumas décadas
– abarcada no grande território do contemporâneo. Preferem definir seu trabalho
como uma literatura de gênero, cuja volubilidade está justamente em transitar
pelo romance policial, pelo gore, ou
pelo surrealismo, sem estabelecer nesse trânsito um lugar de chegada e tampouco
deslumbrar-se com o ufanismo pop.
Suas narrativas,
povoadas por personagens suburbanos entediados, situações absurdas e fábulas
fantásticas, trazem consigo a agilidade dos contos e o frescor de novas formas
de contar história. Gaúcha da gema, prefere abandonar a tendência dos romances
históricos por personagens atuais, cuja vida, por mais desinteressante que
possa ser, constitui um argumento pertinente para uma boa história.
O Reconhecimento
O reconhecimento da editora foi quase imediato: em pouco
tempo, já estampavam suas caras em suplementos de jornais como Zero Hora, O
Globo, revistas como Época e Bravo, ganhando simpatia, tanto dos jornalistas
quanto por parte da crítica especializada.
Em São Paulo, Rio de Janeiro, seus livros ganharam novos
espaços, para além das estantes das livrarias gaúchas. Surgem, então outros
escritores como Marcelo Benvenutti, Cristiano Baldi, Paulo Bullar. E assim era
firmada a idéia inicial da editora, de agregar trabalhos de escritores e
publicá-los em seu pequeno catálogo undeground.
Outros louros ainda vieram em seguida :Na terra natal, recebe o Prêmio Açorianos
de melhor editora; em São Paulo, adaptações para teatro de suas duas primeiras
publicações pelo grupo Cemitério de Automóveis; Em Milão, comemoração pela
publicação dos já clássicos Ovelhas que
voam se Perdem no Céu e Dentes
Guardados, traduzidos por Patrizia di Malta.
O Fim
A escolha do
formato alternativo da editora – que os escritores preferiam chamar de
cooperativa de escritores, inviabilizou a manutenção de suas publicações. Em
dada momento, perceberam-se entre a cruz ou espada: criar livros ou distribuí-los.
Optaram pela criação.
O projeto, que nasceu dia o1 de outubro de
2001, que sempre foi encarado com certo afeto, cresceu em tamanho desproporcional
ao desejo que os autores mantinham de dar corda à suas publicações, em um
formato consideravelmente menor que o percebido, e sumariamente menos
burocrático do que o constatado por Daniel Galera, que se viu entre a missão de
escolher a carreira de escritor ou editor de livros. Sorte: preferiram escrever
e traduzir.
A livros do Mal,
então, decreta, seu fim. Mas deixa marcada a ferro a sua marca: o famoso
logotipo de tétrico pinto, que estampa os livros da editora , ficará lembrado
não somente pela criatividade de Guilherme Pila, que o elaborou, mas pela
emergência do reconhecimento de uma nova literatura – menos responsável, porém
vigorosa – no Brasil. Mas seus escritores estão por aí, mantendo a fixação
pelos mesmos personagens, pelas mesmas situações no sense, que caracterizavam o frescor de suas narrativas. Seus
livros também não se foram, por sorte. Grande parte do catálogo original da
editora pode ser facilmente encontrado em sites especializados, a preços
razoavelmente módicos.
Neste curto
espaço de tempo em que a editora se manteve, muito do olhar comedido das mídias
passou a direcionar-se na procura por novos escritores. Seu legado, além de
quebrar paradigmas no modelo literário que insiste em perpetuar sua forma
rígida e sua ojeriza por novidades, projetou para o público outros nomes,
outras estéticas e a mesma compreensão da literatura como portfólio de um
momento frutífero das letras brasileiras.
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